domingo, 17 de março de 2013

Atividade de Português – 3º Ano (Profª Veronica)

Leia o texto abaixo e responda as questões apresentadas em seguida.

“Clínica de repouso” de Dalton Trevisan
 
Dona Candinha deparou na sala o moço no sofá de veludo e a filha servindo cálice de vinho doce com broinha de fubá mimoso.
Mãezinha, este é o João.
Mais que depressa o tipo de bigodinho foi beijar a mão da velha, que se esquivou à gentileza. O mocinho servia o terceiro cálice, Maria chamou a mãe para a cozinha, pediu-lhe que aceitasse por alguns dias.
Como pensionista?
Não, como hóspede da família. Irmão de uma amiga de infância, sem conhecer ninguém de Curitiba, não podia pagar pensão até conseguir emprego.
Dias mais tarde a velha descobriu que, primeiro, o distinto já estava empregado (colega de repartição de Maria) e, segundo, ainda que dez anos mais moço, era namorado da filha. A situação desmoralizava a velha e comprometia a menina. Dona Candinha discutiu com a filha e depois com o noivo, que achava a seu gosto a combinação.
Sou moço simples, minha senhora. Uma coxinha de frango é o que me basta. Ovo frito na manteiga.
Dona Candinha os surpreendia aos beijos no sofá. A filha saia com o rapaz, voltavam depois da meia-noite. Ás três da manhã a velha acordava com passos furtivos no corredor.
Você põe esse moço na rua. Ou tomo uma providência.
A senhora está louca.
Maria era maior, podia entrar a hora que bem quisesse, a velha estava caduca. Assim que a filha saiu, dona Candinha bateu na porta do hóspede, ainda de pijama azul de seda com bolinha branca:
– Moço, você ganha a vida. Tem como se manter.trate de ir embora.
De volta das compras (delicadezas para o príncipe de bigodinho), a filha insultou dona Candinha aos gritos de velha doida, maníaca, avarenta.
Não vai me dar nem um tostão para esse pilantra. Ai, minha filha, como me arrependo do dia em que noivou.
Maria nem pode responder:
Eu, sim, me arrependo do dia em que a senhora casou.
Sentiu-se afrontada a velhota, com palpitação, tontura, pé frio. Arrastou-se quietinha para a cama, cobriu a cabeça com o lençol:
Apague a luz – ela gemeu – que vou morrer.
Susto tão grande que o rapaz decidiu arrumar a mala. Manhã seguinte a velha pulou cedo, alegrinha espanou os elefantes coloridos de louça. A filha não almoçou e antes de bater a porta:
O João volta ou saio de casa. A vergonha é da senhora.
Dona Candinha fez promessa para as almas do purgatório. Tão aflita, em vez de rezar dia por dia, rematou a novena numa tarde só.
Menina, não se fie de moço com dente de ouro.
– Lembre-se, mãe, a senhora me despediu.
Vá com seu noivo. Depois não se queixe, filha ingrata.
De tanto se agoniar dona Candinha caiu de cama.
A senhora não me ilude. Finge-se doente para me castigar. Com este calor debaixo da coberta.
Muito fraca. Eu suo na cabeça. O pé sempre frio.
Deliciada quando a moça trazia chá com torrada. Terceiro dia, a filha inrompe no quarto, escancara a janela. Introduz o gordo perfumado:
O médico para a senhora.
O doutor examinou-a e, para o esgotamento nervoso, receitou cura de repouso.
A senhora vai por bem – intimou a filha – ou então à força.
Queria o convento das freiras e não o hospital, que lhe recordava o falecido, entrevado na cadeira de rodas. Umas colheradas de canja, cochilou gostosamente. Às duas da tarde, o aposento invadido pela filha, o noivo e um enfermeiro de avental sujo.
É já que vai para a clínica.
Eu vou se não for asilo de louco. Bem longe do doutor Alô.
Um táxi esperava na porta, o noivo sentou-se ao lado do motorista, ela apertada entre a filha e o enfermeiro. Quando viu estava no Asilo Nossa Senhora da Luz, perdida com doida, epilética, alcoólatra.
Nunca entra sol no pavilhão, a umidade escorria da parede, o chão de cimento. De noite o maldito olho amarelo sempre aceso no fio manchado de mosca.
Quem reclama – era o sistema do doutor alô – ganha choque!
Ao menor protesto ou queixume:
Olhe o choque, melindrosa! Olhe a injeção na espinha! Olhe a insulina na veia!
Um banheiro só e,depois esperar na fila, aquela imundície no chão e na parede. A louquinha auxiliava a servente que, essa, fazia de enfermeira. Intragável o feijão com arroz, dona Candinha sustentava- se a chá de mate e biscoito duro. Engolia com esforço o caldo ralo de repolho.
Vinte e dois dias depois recebeu a visita da filha, o noivo fumava na porta.
A senhora fazendo greve de fome?
Na minha casa o arroz é escorrido, o feijão lavado.
Só de braba não come.
Daí a tortura da sede. Servia-se da torneira no banheiro, não é que uma possessa vomitou na pia? Foi encher o copo, deu com tamanho horror. Embora lavada a pia, guardou a impressão e sofria a sede.
Doidinha eu sou – disse uma das mansas – Meu lugar é aqui. Mas a senhora fazendo o quê?
Uma lunática oferecia-lhe bolacha e fruta. Mandou bilhete na sua letra caprichada, a filha só apareceu domingo seguinte.
A senhora não está boa. Nem penteia o cabelo. Não cumprimenta o doutor Alô.
Essa ingratidão não posso aceitar – e abafava o soluço no pavor do choque – Não sou maluca e sei me mandar.
Prove.
Com o túmulo de seu pai. Já pintado de azul.
Instalado na casa, o noivo regalava-se com ovo frito na manteiga,coxinha gorda de frango.
Quem não come – advertia a servente – vai para o choque!
Dona Candinha encheu-se de coragem e choramingou para a freira superiora que não tomava sol, sofria de reumatismo, com a gritaria das furiosas que podia dormir?
Ao cruzar a enfermaria, a freira chamou uma das bobas
Você é nova aqui?
Entrei ontem , sim senhora.
Se tiver alguma queixa, fale com dona Candinha. – e batendo palmas de tanta graça. – é a palhaça do circo.
A servente largava o balde e o enxergão, sem lavar as mãos aplicava insulina na veia de uma possessa. Dona Candinha fingia tossir e cuspia a pílula escondida no buraco do dente.
Chorando de manhã ao se lembrar do tempo feliz com o finado. À noite, chorava outra vez: menina tão amorosa, hoje feroz inimiga. Não doía ter sido internada. – culpa sua não sair da cama – Mas sabendo o que sofria, a moça não a tirasse dali.
Minha própria filha? Estalou baixinho a língua ressequida. – que não me acudiu na maior precisão? Surpreendida rondando o portão, confiscaram-lhe a roupa, agora em camisola imunda e chinelo de pelúcia. ?Sem se aquecer ao sol, sobrevivendo aos golinhos de chá frio e bolacha Maria. Tão fraca nem podia ler, as letras embaralhadas mesmo de óculo.
Olhe essa mulher, doutor – era a filha, vestido preto de cetim, lábio de púrpura, pulseira prateada. –domingo de sol, uma pessoa deitada? O dia inteiro chorando e se queixando. Aqui não falta nada, que mais ela quer?
Vá-se embora – respondeu docemente a velha. Desapareça de minha vista. Você mais o dente de ouro.
De dia o rádio ligado a todo volume. À noite, a gritaria furiosa das lunáticas. Sentadinha na cama, distrai-se a velha a espiar uma nesga de céu. Com paciência, amansa uma mosca nas grades, que vem comer na sua mão arrepiada de cócegas. Há três dias, afeiçoada à velhinha, não foge a mosca por entre as grades da janela.


Questões:
 
1)    O conto “Clínica de repouso” de Dalton Trevisan retrata uma família em conflito. Qual é a origem do conflito?

2)    Os desentendimentos eram constantes entre mãe e filha. O que fez a filha para se livrar dos atritos?

3)    O doutor Alô diagnosticou alguma doença em dona Candinha? Qual?

4)    Como é descrita a clínica de repouso?

5)    Vários fatores contribuíram para o falecimento de dona Candinha. Cite alguns.

6)    Dona Candinha mereceu o tratamento que lhe fora dado pela filha e o genro?
 
Análise da narrativa. Descreva:

1)    O narrador

2)    O tempo

3)    O espaço

4)    As personagens.
 

Formato de entrega: Respostas manuscritas em folha de papel almaço.

Data de entrega: Até 25 de Março de 2013.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

ATIVIDADE DE PORTUGUÊS – 3º ANO (Profª Veronica)

Tema: Análise e reflexão de texto de Rubem Fonseca





Fonte:
www.releituras.com/rfonseca_bio.asp
Nascido em Juiz de Fora, Minas Gerais, em 11 de maio de 1925, José Rubem Fonseca é formado em Direito, tendo exercido várias atividades antes de dedicar-se inteiramente à literatura. Em 31 de dezembro de 1952 iniciou sua carreira na polícia, como comissário, no 16º Distrito Policial, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Muitos dos fatos vividos naquela época e dos seus companheiros de trabalho estão imortalizados em seus livros. Aluno brilhante da Escola de Polícia, não demonstrava, então, pendores literários. Ficou pouco tempo nas ruas. Foi, na maior parte do tempo em que trabalhou, até ser exonerado em 06 de fevereiro de 1958, um policial de gabinete. Cuidava do serviço de relações públicas da polícia. Em julho de 1954 recebeu uma licença para estudar e depois dar aulas sobre esse assunto na Fundação Getúlio Vargas, no Rio. Na Escola de Polícia destacou-se em Psicologia. Contemporâneos de Rubem Fonseca dizem que, naquela época, os policiais eram mais juízes de paz, apartadores de briga, do que autoridades. Zé Rubem via, debaixo das definições legais, as tragédias humanas e conseguia resolvê-las. Nesse aspecto, afirmam, ele era admirável. Escolhido, com mais nove policiais cariocas, para se aperfeiçoar nos Estados Unidos, entre setembro de 1953 e março de 1954, aproveitou a oportunidade para estudar administração de empresas na New York University. Após sair da polícia, Rubem Fonseca trabalhou na Light até se dedicar integralmente à literatura. É viúvo e tem três filhos.


Atividade: Ler o texto abaixo e responder as questões apresentadas em seguida.

"Família", de Fernando Botero.

Passeio Noturno 1
Rubem Fonseca

Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar. Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar?A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta. Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu. Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio. Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas. A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.

Com base no texto acima, responda:

O conto Passeio Noturno 1 de Rubem Fonseca retrata a alienação, o isolamento e a fragmentação do homem pós-moderno na célula básica da formação da família.

1) O conto delineia a crítica, a ironia e a fragmentação do sujeito pós-moderno dentro de uma sociedade massificada? Explique.
2) Como um executivo pertencente à classe média alta do Rio de Janeiro relaxa as tensões de um dia árduo de trabalho? Explique.
3) Nesse conto, o discurso irônico do narrador leva ao questionamento dos valores estabelecidos presentes na sociedade consumista. Eles são positivos ou negativos? Explique.
4) Como a mãe é retratada nesse conto?
5) E os filhos apresentam vínculos afetivos? Comente.
6) A família vive um padrão de vida muito elevado e consumista ao extremo. Há uma demonstração de felicidade nesse ambiente? Explique.
7) Há nessa família a presença de diálogo? Comente.
8) O conto expõe o sujeito pós-moderno, que é solitário e ao mesmo tempo massificado. Esse sujeito perdeu as suas referências enquanto sujeito?
9) Numa sociedade fragmentada, as pessoas buscam bens materiais para suprir as necessidades emocionais e espirituais das quais estão esvaziadas? Comente.
10) O pai finge trabalhar na biblioteca para não estabelecer contato pessoal com a própria família? Explique.
11) Como você descreve o protagonista dessa história.
12) Sabemos que o indivíduo sai à noite “sempre” para matar alguém. Por que não se descobre o assassino?
13) O narrador desse conto pretende mostrar o quanto a sociedade abandonou valores éticos e passou a dar importância exclusivamente aos bens materiais. Isso é saudável? Por quê?
14) O escritor Rubem Fonseca retrata a cidade como um abismo urbano no qual o indivíduo perdeu a noção do convívio social e também respeito pelo outro. O que fazer para mudar essa realidade?
15) Por que a sociedade transgride tanto, ou seja, pouco pratica as normas, as leis e tornou-se tão alienada? Comente.
16) Rubem Fonseca revela nesse conto, o seu desencanto com o mundo contemporâneo e seu objetivo é despertar nos seus leitores a reflexão sobre o mundo no qual vivem. E você, jovem pós-moderno o que tem a dizer sobre esse conto que crítica à violência da sociedade capitalista onde convivem as vozes da cultura e as vozes políticas?

Formato de entrega: Respostas manuscritas em folha de papel almaço.

Data de entrega: Até 11 de Março de 2013.